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24 de jul de 2013

POEMA: Quitandeira

Mulata Quitandeira, de Antônio Ferrigno


QUITANDEIRA
(Agostinho Neto)

A quitandeira.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

-Laranja, minha senhora
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

-Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância de espírito
este botão de rosa
que não abriu
principio impelido ainda para um início.

-Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comunidade de senhores ricos
a alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
-Compra laranjas
minha senhora!
leva-me para as quitandas da vida
o meu preço é único:
-sangue.

Talvez vendo-me
eu me possua.

-Compra laranjas!

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